terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Mikael- Parte 4 (Epílogo)... Por André Cozta*

Foi um dia confuso para Mikael. Já à noite, em sua casa, refletiu sobre tudo o que havia acontecido. E pensou: "- Foi um sonho? Me pareceu tudo tão real!".
Ele não sabia o que pensar, então, resolveu sair, beber, divertir-se. Desceu Santa Tereza rumo à Lapa.
Lá, sentou-se em um botequim e começou a beber. O tempo foi passando e Mikael embriagando-se. Olhava as pessoas passando na rua, observava cada movimento daquele pedaço da cidade.
De repente, sentiu vontade de chorar, mas, segurou a emoção.
Pôs a mão no bolso da calça e puxou o amuleto vermelho e preto. Não lembrava-se de ter posto aquele amuleto no bolso. O amuleto emanou uma luz vermelha e, instantaneamente Mikael olhou para a porta do bar e viu um homem sorrindo. Era um homem de cavanhaque e cabelos negros, olhar firme, sorriso largo. Telepaticamente, ele ouviu: "- Venha comigo, Mikael."Mikael pagou a conta, levantou-se e saiu do bar.
Caminhava em direção à Santa Tereza. O homem atrás dele, começou a conversar telepaticamente:"- É a mim que você acionará através do amuleto vermelho e preto sempre que precisar. Sempre que estiver na rua e precisar de ajuda, estarei por perto. Aliás, sempre que você está na rua estou por perto, mesmo quando você não me vê. Eu sou o dono de todas as ruas, de todas as encruzilhadas, domino e mando na rua, em qualquer lugar que você imaginar."
"- Mas, quem é você?- indagou Mikael telepaticamente.
"- Sou o 7 Encruzilhadas, o Exu das 7 Encruzilhadas, o seu protetor, o seu guardião, o dono da rua!"- O homem deu uma gargalhada estrondosa.
Mikael, neste momento, lembrou-se quando Aganju consagrou os amuletos e entregou-lhe. Chegou em casa e percebeu que havia caminhado uma distância enorme sozinho (normalmente, pegaria um táxi) sem medo algum.
Ao chegar ao portão, olhou para trás e seu guardião falou telepaticamente: "- Tá entregue, mureque."
Mikael sorriu para o guardião e entrou em casa. A sua tontura resultante do que havia bebido, desaparecera em parte.
Já em seu quarto, ele guardou o amuleto vermelho e preto na gaveta de sua cômoda, pegou o amuleto preto e branco, fixou o olhar nele e viu uma luz emanar do objeto, passar por sobre sua cabeça e ir para a parede que estava às suas costas. Ouviu uma risada fina e marota, parecendo ser a risada de um velhinho. Imediatamente olhou para trás, um portal de luz abriu-se e apareceu um Preto Velho sentado em um toco de árvore, com uma bengala marrom de madeira à mão direita e apoiada sobre sua perna direita que era dura e esticada. À mão esquerda, o negro velho baforejava um cachimbo marrom de madeira. De vez em quando, o velho largava a bengala sobre a perna direita para beber um vinho em uma cumbuca de cabaça.
Mikael perguntou:- Quem é o senhor? O Preto Velho soltou sua fina gargalhada e disse:
- Eu sou, meu fio, aquele que seu pai falou e enviou pra cuidá do sinhô.
- Mas, qual é o seu nome?- Pai Thomé, fio, meu nome é Pai Thomé. Quando Xangô Aganju deu pro sinhô o amuleto preto e branco ele me deu a missão de cuidá do sinhô. Então, eu tô aqui, pra fazê com que o sinhô cumpra tudo que tá escrito, fazê que o sinhô siga sua jornada sem balançar. O homem que trouxe o sinhô até aqui, o do amuleto vermeio e preto vai cuidá dos seus caminhos na rua, mas, quem vai cuidá da sua cabeça, dos caminhos que o sinhô vai traçá na vida e também vai prestá conta pro seu pai, sou eu fio.
- Entendi, mas, o que eu devo fazer pra cumprir tudo isso? É muito difícil?
O Preto Velho, pacientemente pitou seu cachimbo e, em seguida, respondeu:
- Nâo é difícil, fio. O sinhô só tem que mantê a sintonia com nego véio. Todo dia, quando acordá, pega o amuleto preto e branco, olha pra ele e conversa com nego véio. O sinhô não vai enxegá nego véio toda hora como tá vendo agora, mas, vai ouví tudo que nego véio falá no seu côco, na sua cabecinha.
Mikael ficou pasmo, olhando para aquele homem que transmitia uma paz imensurável. O Preto Velho prosseguiu:
- Fio, nego véio veio só pra se apresentá. Agora, o sinhô vai descansá, porque amanhã começa a trabaiá.
Mikael esboçou falar algo para o Preto Velho, mas, o portal fechou-se. Ele ficou intrigado, mas, neste momento, passou a entender perfeitamente o porque dos acontecimentos dos últimos dias em sua vida. E naquela noite dormiu tranquilamente como já não acontecia há muito tempo.
No dia seguinte, acordou-se, alimentou-se calmamente com um café-da-manhã especialíssimo que preparou. Estava muito feliz, radiante, pois, sabia que a partir daquele dia sua vida mudaria, a partir daquele dia sua vida tomaria uma nova forma, teria um novo sentido, o sentido real e definitivo. Após o café, resolveu ligar para Andrea, que o convidou para jantar. Encontraram-se à noite em um charmoso restaurante em Santa Tereza.
- Meu francesinho, quanto tempo! Ai, que saudades! Olha, muitas coisas aconteceram em minha vida nos últimos tempos. Preciso te contar.
- Na minha também, Andrea. Aliás, eu pensei muito em você quando soube da morte brutal do seu amigo, lá no centro da cidade. Lembro-me bem dele em algumas vezes que o encontrei com você na Lapa. Mesmo com o pouco contato que tive com ele, não tinha como não perceber sua doçura, a paz em seu olhar, seu semblante. Era uma pessoa diferenciada, não é mesmo?
- Com certeza, meu amigo (Andrea estava com a voz embargada e os olhos marejados). Ele era uma pessoa especial e diferenciada. E o poeta já disse "é tão estranho, os bons morrem jovens", mas, sinceramente, eu não consigo entender esse tipo de coisa. A saudade ainda dói, Mikael, mas, eu tenho certeza de que ele está muito bem, bem cuidado, foi bem encaminhado. Mas, enfim, Deus sabe o que faz. Me fala de você, meu francesinho.
- Ah, Andrea, muitas coisas aconteceram, mas, o mais importante, é que hoje eu tenho firmeza e certeza do que quero para mim e para minha vida.
Mikael preferiu não entrar em detalhes dos acontecimentos espirituais que mudaram sua vida. Continuou conversando com a amiga vários assuntos. Após o jantar, deixou-a em sua casa no Leme e voltou para Santa Tereza.
7 dias após o encontro, Mikael recebeu um telefonema de Andrea:
- Oi Mikael, seu sapeca! Se eu não te ligar a gente não se fala, porque você nunca me liga, né?
- Ah, desculpa, Andrea. Tenho andado recolhido pensando e planejando meu futuro.
- Tudo bem, eu te perdoo. Mas, deixa eu te falar uma coisa: tenho um amigo que dirige uma ONG na Maré. A partir do mês que vem, ele terá um escritório desta ONG na Lapa. Está com dois projetos: um de restauração dos Arcos e dos prédios da Lapa e outro de construção de casas populares na Maré para melhorar a qualidade de vida daquelas pessoas, extinguindo os barracos e trocando por moradias dignas. E, por conta disso, precisa de um arquiteto. Pensei em você. Topa?
Mikael, com os olhos marejados, respondeu à amiga:
- Topo agora. Estava esperando por este momento, Andrea.
- Então, vou passar seu telefone para ele conversar melhor com você, pode ser?
- Claro, claro. Vou aguardá-lo.
- Então está bem, amado! Vou desligar, pois, preciso trabalhar. Depois, me conta como foi o papo de vocês, tá?
- Pode deixar, Andrea.
- Tchau, nego.
- Tchau, querida.
Mikael desligou o telefone e pensou em tudo o que Aganju havia lhe falado no castelo. Lembrou-se de sua conversa com o Pai Thomé e pensou: "- Meu Deus, agora eu sei o que será, o que está sendo de mim!".
Foi para a janela, olhou para as estrelas e para a lua cheia. Voltou a olhar para as estrelas e fixou o olhar nas 3 Marias. E entre estas estrelas, viu Aganju parado, em pé, com as asas eretas e reluzentemente brancas, braços cruzados sobre o peito com o machado de duas faces na mão direita, a espada de ouro na mão esquerda e sorrindo para seu filho.


FIM

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

TERREIRO DEPREDADO EM NOVA IGUAÇU


KAWO KABIECILE!!!!

Reproduzimos abaixo, notícia do Jornal Extra, falando da depredação de um terreiro em Nova Iguaçu no último dia 24.
Apenas pergunto: a quem incomodamos tanto? Por que incomodamos?


SARAVÁ!!!!

26/11/2009 - Policia realiza pericia criminal em centro de umbanda invadido e depredado em Nova Iguaçu.Foto Luis Alvarenga/Extra/Agencia O Globo.

Cerca de 30 pessoas entre judeus, mulçumanos, católicos, umbandistas e candomblecistas acompanharam, na manhã desta quarta-feira, o trabalho da perícia técnica no Centro Espírita Caminhos de Oxum, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O local foi depredado e invadido na madrugada da última terça-feira, dia 24.

Estudos papiloscópicos foram realizados para tentar identificar as digitais dos vândalos. Segundo policiais civis, fitas de vídeo do sistema de seguranda da Igreja Universal do Reino de Deus, que monitora toda a rua onde fica localizado o centro espírita serão requisitados. O caso foi registrado na delegacia de Nova Iguaçu. A polícia não descarta a hipótese de que fiéis da igreja tenham depredado o templo.

Em outubro, o sacerdote Bruno Pereira afirma ter sido alvo de agressão por parte de fanáticos religiosos quando realizava um trabalho de umbanda na rua.

A Comissão de Combate Intolerância Religiosa (CCIR) recebe denúncias sistemáticas de invasão e vandalismo em terreiros de umbanda e candomblé na Baixada Fluminense, São Gonçalo e na Zona Oeste do Rio.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

SOBRE TV E CONSCIÊNCIA- *Por Joyce Nahoum

Queria escrever mais para o blog, mas tenho treinado pouco o auto controle para governar o externo. rs
Queria dividir com vocês minhas agonias mais vezes.
Hoje mesmo, foi um dia de agonias.
Bom, já que comecei, vou adiante. Se quiser, pode postar o que vem a seguir.
Eu fico boba de ver como a caixinha quadrada que emite imagens e sons é um meio de disseminar opiniões obscuras, se assim posso dizer.
E como os programas são "comprometidos" com a diversidade, com os problemas sociais, com as minorias...
Estava me arrumando para sair e liguei a TV para fazer barulho na casa. Assisto pouco a TV, e a cada dia tenho menos prazer em fazer isso.
Passava a reprise do programa "Na Rua" da MTV que foi ao ar na 6a feira, feriado de Zumbi, ou melhor, da consciência negra.
Foi um festival de besteiras ditas pela juventude paulistana (o programa vai ao ar ao vivo, gravado nas ruas de São Paulo), e apoiado pela apresentadora.
Logo a MTV, uma emissora moderninha, com a cara da juventude e com a adesão da juventude, o que é pior. Através do entretenimento, milhares de jovens caem na rede e viram peixe, consomem, se vêem representados, pensam que têm voz e acabam reproduzindo discursos infundados e por vezes perigosos.
Para exemplo de que a coisa é tendenciosa, começaram o programa falando sobre gravidez na adolescência, dando fala à váááárias adolescentes mães e não-mães-ainda, que falaram sobre o que fariam ou o que fizeram quando descobriram a gravidez, e apenas 1 (um) rapaz que por sinal, foi bastante feliz em sua colocação. Podendo-se tirar como uma raridade no exemplo de responsabilidade masculina na criação da "prole surpresa", quando Murph entra em ação e "acontece o que pode acontecer com a sua vizinha, mas não com você".

Se pregamos uma sociedade menos machista, precisamos treinar discursos menos unilaterais. A mulher, a mãe, é sempre responsabilizada. Vejo isso de perto, na minha família.

E se a camisinha furou, coitado do rapaz... Já cumpriu a obrigação de usar camisinha, e o que mais vocês querem?

Bom, depois de começar, assim, como quem não quer nada um programa no dia da consciência negra, foi veiculada uma propaganda de uma Universidade particular, com muitas vagas e condições especialíssimas de pagamento. “Depois não vai dizer que não teve oportunidade!” – palavras da apresentadora...

E em seguida, vejam que coincidência! “Próóóóóximo assunto: cotas!” (num gritinho histérico e desnecessário) Não só nas universidades, mas na TV e agora também até nas empresas (essa eu não sabia ainda).

Ai, me desanima lembrar...

Se me lembro bem, acho que nenhum entrevistado era a favor. Até porque expressar uma opinião divergente da hegemônica é típico da juventude, transgressora na melhor das interpretações... (acho que já foi época).

E os argumentos bailavam entre o senso-comum e a falta de bom-senso.

De “os negros são tão capazes quanto todos os outros” até “todos têm as mesmas oportunidades”. Chega a doer os ouvidos... Ó, meu pai! Viva a democracia! Não sei como a Prefeitura ainda não criou o programa “oportunidade para todos”.

E por fim! O auge do programa, o ponto alto! Dia da consciência negra. A essa altura eu já não esperava mais nada de positivo mesmo... Os comentários descambaram para pior.

“Um dia só para os negros, é preconceito!” (Só para pegar leve, tinham piores) A apresentadora: “É, assim como o dia das mulheres, né?!”

Ô povo reacionário. Deviam parar de ver clipe, acho que fazem mal à visão.

KAWO KABIECILE!!!!

Uma ode à Umbanda, a mais brasileira das religiões.
No texto abaixo, o teólogo Leonardo Boff resume em poucos parágrafos o que muita gente procura descobrir e o que tantos outros não conseguem explicar, traduzir. Mas, além da homenagem, seu texto sintetiza como é e qual a verdadeira função desta doutrina popular.


SARAVÁ!!!!

O encanto dos Orixás

Leonardo Boff
Teólogo


Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuina brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas. Num contexto de desamparo social, com milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas, doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima experiência espiritual.

O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos. Essa revelação tem como destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual. Ela quer reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar a caridade e o amor fraterno, mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.

O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas tradições orientais) e de BANDHA (movimento inecessante da força divina). Sincretiza de forma criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso pais criando um sistema coerente. Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres humanos em suas necessidades. Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las. Os Orixás, a Mata Virgem, o Rompe Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas arquetípicas da Divindade. Elas não multiplicam Deus num falso panteismo mas concretizam, sob os mais diversos nomes, o único e mesmo Deus. Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.

A Umbanda é uma religião profundamente ecológica. Devolve ao ser humano o sentido da reverência face às energias cósmicas. Renuncia aos sacrifícios de animais para restringir-se somente às flores e à luz, realidades sutis e espirituais.

Há um diplomata brasileiro, Flávio Perri, que serviu em embaixadas importantes como Paris, Roma, Genebra e Nova York que se deixou encantar pela religião da Umbanda. Com recursos das ciências comparadas das religiões e dos vários métodos hermenêuticos elaborou perspicazes reflexões que levam exatamente este título O Encanto dos Orixás, desvendando-nos a riqueza espiritual da Umbanda. Permeia seu trabalho com poemas próprios de fina percepção espiritual. Ele se inscreve no gênero dos poetas-pensadores e místicos como Alvaro Campos (Fernando Pessoa), Murilo Mendes, T. S. Elliot e o sufi Rumi. Mesmo sob o encanto, seu estilo é contido, sem qualquer exaltação, pois é esse rigor que a natureza do espiritual exige.

Além disso, ajuda a desmontar preconceitos que cercam a Umbanda, por causa de suas origens nos pobres da cultura popular, espontaneamente sincréticos. Que eles tenham produzido significativa espiritualidade e criado uma religião cujos meios de expressão são puros e singelos revela quão profunda e rica é a cultura desses humilhados e ofendidos, nossos irmãos e irmãs. Como se dizia nos primórdios do Cristianismo que, em sua origem também era uma religião de escravos e de marginalizados, “os pobres são nossos mestres, os humildes, nossos doutores”.

Talvez algum leitor/a estranhe que um teólogo como eu diga tudo isso que escrevi. Apenas respondo: um teólogo que não consegue ver Deus para além dos limites de sua religião ou igreja não é um bom teólogo. É antes um erudito de doutrinas. Perde a ocasião de se encontrar com Deus que se comunica por outros caminhos e que fala por diferentes mensageiros, seus verdadeiros anjos. Deus desborda de nossas cabeças e dogmas.

Leonardo Boff é autor de Meditação da Luz. O caminho da simplicidade. Vozes 2009.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

KAWO KABIECILE!!!!

No dia 24 de maio, publicamos um texto relatando a primeira manifestação do Caboclo das 7 Encruzilhadas, em 15 de novembro de 1908, data que é considerada o marco inicial da Umbanda no Brasil.
Hoje, publicamos um texto retirado do site da TENDA ESPÍRITA FRATERNIDADE DA LUZ- CASA DO CABOCLO DAS 7 ENCRUZILHADAS (www.tefl.com.br) contando a história da encarnação no Brasil do Caboclo das 7 Encruzilhadas.
Boa leitura.


SARAVÁ!!!!

ENCARNAÇÃO NO BRASIL DO CABOCLO DAS 7 ENCRUZILHADAS

"Inicialmente, uma rápida explicação quanto à confusão que alguns irmãos fazem, porque o Caboclo das Sete Encruzilhadas e o Exu Rei das Sete Encruzilhadas são entidades que possuem nomes semelhantes, são quase homônimos, porém espíritos distintos, cada um deles trabalhando espiritualmente em seu nível vibratório. Ambos prestam grandes serviços para a melhoria e desenvolvimento dos espíritos encarnados. Ambos estão em constante evolução, mas não existe qualquer relação de dependência entre eles.

Ao que se tem informação, é que o Caboclo das Sete Encruzilhadas é um espírito muito antigo, já encarnado ao tempo da vinda do Mestre Jesus à Terra e que na roda de suas encarnações jamais apareceu no nível em que trabalham os nossos compadres Exus, como alguns , face à semelhança de nomes , tentam explicar.

No tempo do Brasil Colônia, mais precisamente no Estado do Rio de Janeiro, em uma localidade às margens do Rio Paraíba do Sul, chamada hoje de Barra do Piraí. Precisamente neste local, aonde o rio atingia uma grande largura e o seu leito tomava um aspecto sinuoso, existia uma fazenda de diversas culturas, entre as quais e em maior escala a do café e da cana-de-açúcar.

Tal propriedade era administrada por uma família portuguesa,que ao contrário de outras existentes nas proximidades, não exigia o braço escravo. Os negros que lá trabalhavam recebiam além da casa e alimentação uma remuneração em moeda, por isso era a propriedade mais próspera do local, graças à forma de administração adotada por seus proprietários. Próximo dali, vivia uma tribo de índios da Nação Tupi-Guarani com os quais os fazendeiros mantinham um excelente relacionamento.

O Chefe da tribo era moço e possuía uma razoável cultura, pois fora alfabetizado na Capital, apaixonou-se por uma das filhas do fazendeiro, que correspondeu ao seu afeto, vindo a casar-se com ele e contrariando os costumes de ambas as comunidades. Após a união ela engravidou, tendo que viajar à Capital do Rio de Janeiro para tratamento médico, Demorou-se algum tempo e, ao regressar, recebeu a horrível noticia de que um grupo de índios estranhos na localidade, de surpresa, tentou invadir a fazenda para saqueá-la, os fazendeiros pediram socorro e os guerreiros Tupi-Guarani vieram, mas não puderam impedir que os pais da moça e seus irmãos fossem mortos.

Na batalha, o chefe Tupi-Guarani, seu marido, ficou gravemente ferido, vindo também a falecer em conseqüência. Ao todo, sete pessoas foram assassinadas pela tribo invasora. E todos foram sepultados em uma ilha situada no Rio Paraíba do Sul, dentro da fazenda. E a moça grávida, única remanescente da família de fazendeiros, ia todas as tardes rezar na ilha, junto às sete cruzes que demarcavam os locais onde seus pais, irmãos e esposo foram sepultados.

Porém, em uma dessas tardes em que rezava junto ao túmulo do esposo, sentiu-se em trabalho de parto e ali mesmo deu à luz a um menino, seu filho com o chefe Tupi-Guarani,cujo corpo estava naquele local sepultado. O menino menino cresceu cercado do imenso carinho de sua mãe e recebeu ensinamento proveniente de duas culturas: a cristã adotada por sua mãe e a outra orientada pelo Pajé da tribo de seu pai. Estudou na Capital do Estado e posteriormente na Côrte, recebendo instrução superior de Direito. Como advogado teve intensa atividade profissional em defesa de escravos nos Tribunais do Rio de Janeiro, que eram acusados de crimes pelos senhores de Engenho. Na qualidade de chefe de sua comunidade indígena, disfarçadamente, invadia as fazendas de regime escravo, libertando os cativos e colocando-os em local seguro. Na verdade, ninguém conseguia identificar o chefe que comandava o grupo indígena libertador de escravos, ora ele se apresentava com o aspecto físico de indivíduo alto, ora baixo, às vezes gordo e outras vezes magro, cada ataque era comandado por uma pessoa diferente e assim ele conseguia se manter no anonimato, conseqüente à dupla personalidade. O seu verdadeiro nome era Caboclo das Sete Cruzes Ilhadas, por ter nascido no local onde existiam sete cruzes em uma ilha, porém o povo por corruptela o chamava de Caboclo das Sete Encruzilhadas, nome que ele adotou humildemente, até mesmo em sua vida espiritual. Tal nome ficou fixado pelo povo escravo, que o adorava, e quando o grupo surgia na estrada eles cantavam uma toada que tinha a seguinte letra:

"Lá vem , lá vem , bem longe na estrada, lá vem,lá vem, o Caboclo das Sete Encruzilhadas "

A nossa Casa mantém, desde a sua fundação, em seu ritual de abertura e encerramento de suas sessões espirituais, um ponto ou curimba com as mesmas características daquela toada, com que era saudado pelo povo escravo:

" Chegou (ou subiu), chegou, o Caboclo das Sete Encruzilhadas "

Acreditamos que a melodia deste ponto seja a mesma da toada dos escravos. Após ter desencarnado, voltou através da mediunidade de Zélio Fernandino de Moraes, em Novembro de 1908, como espírito mensageiro, colocando as bases da Umbanda, no Rio de Janeiro. Antes do ano de 1948, um grupo liderado por Henrique Landi Junior, nosso fundador, várias vezes dirigiu-se à cidade vizinha de Niterói, na busca de uma entrevista com o Caboclo das Sete Encruzilhadas, que nem mesmo o seu médium Zélio, sabia o dia e a hora em que voltaria a incorporar. Quando aconteceu o encontro o Caboclo forneceu a orientação para a fundação da Tenda Espírita Fraternidade da Luz, fato que ocorreu em 8 de Abril de 1948, pautado nas normas umbandistas adotadas pela entidade.

E ao terminarmos este relato, não poderíamos deixar de considerar aqui o nosso pleito de gratidão a Zélio Fernandino de Moraes, médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas, veículo através do qual esta luminosa entidade nos legou a maravilhosa Umbanda, fundamentada na máxima crística:

Fé - Esperança - Caridade"

sábado, 21 de novembro de 2009

CONTRA OS ATAQUES RELIGIOSOS NO PARANÁ

GAZETA DO POVO- Curitiba- 20/11/09

Representantes de religiões afro-brasileiras pretendem mapear as casas de umbanda e candomblé no Paraná e combater a discriminação, que impede muitos praticantes de expor suas crenças. Hoje, Dia Nacional da Consciência Negra e data da morte do líder negro Zumbi dos Palmares, será lançado o Fórum Paranaense de Religiões de Matriz Africana (FPRMA), com evento às 14 horas, no Instituto Edusol, em Curitiba. O objetivo do fórum é ampliar o debate sobre medidas que diminuam o preconceito contra os cultos de origem africana. Antes do lançamento, seguidores das religiões afro-brasileiras farão uma caminhada da Boca Maldita até a sede do instituto, às 9h30.

De acordo com o coordenador do fórum, Rômulo Barroso Miranda, o ogã Rômulo de Osaguian, seguidor do candomblé, as religiões afro-brasileiras ainda hoje são muito estigmatizadas. “Muitas pessoas ainda têm a mania de demonizar os cultos afro-brasileiros. Mas nem existe demônio na nossa religião”, afirma Miranda. A consequência disso é a intolerância religiosa. “É comum as casas serem apedrejadas porque algumas pessoas não aceitam nossos ritos, como o sacrifício de animais”, reforça o coordenador do FPRMA.

Governo regulariza 30 quilombos

Agência Estado

Sorocaba (SP) - Depois de uma espera de mais de 20 anos, a aldeia negra do Cafundó, em Salto de Pirapora, a 125 km de São Paulo, será reconhecida oficialmente como território quilombola. As 18 famílias – pouco mais de 60 pessoas – preservam a cupópia, um dialeto construído a partir de línguas africanas, usado na comunicação interna e incompreensível para quem chega de fora. O Cafundó está entre os 30 territórios quilombolas do país que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva regularizará por decreto hoje, em Salvador, como parte das comemorações do Dia da Consciência Negra.

Serão beneficiadas 3.818 famílias em 14 estados, com a regularização de 342 mil hectares. Em São Paulo, além do Cafundó, serão contempladas as 27 famílias do quilombo de Brotas, no município de Itatiba – as duas áreas somam 232,2 hectares. Pelo ato, o Estado reconhece o direito de permanência das comunidades negras em seu território historicamente ocupado, como prevê a Constituição de 1988.

No Cafundó, os descendentes de escravos herdaram uma fazenda de 527 hectares, mas tiveram as terras griladas. Hoje, ocupam 17 hectares. “A terra é pouca, não dá para tirar o sustento”, reclama o líder Marcos Norberto de Almeida, 48 anos. Desde os anos 80 do século passado eles lutam para reaver o território. Este ano, ocuparam uma fazenda vizinha para protestar contra a morosidade do processo. Os quilombolas participaram ontem de um desfile em Sorocaba – o Dia da Consciência Negra não é feriado em Salto de Pirapora.

Estes são os primeiros decretos de áreas quilombolas que envolvem desapropriações (áreas que não são em terras públicas) no país. A partir daí é possível dar início ao processo de avaliação dos imóveis que, após a indenização aos proprietários, permitirá que as famílias utilizem o território e obtenham o título definitivo de suas terras. O título é coletivo, mas dá acesso às políticas públicas básicas, como o Bolsa Família, Programa Nacional de Fortale­cimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Desde 2003, quando o Incra assumiu a identificação, reconhecimento e demarcação dos remanescentes de quilombos, foram expedidos 59 títulos regularizando 53 territórios habitados por 4.133 famílias. Atualmente, existem 851 processos visando à identificação de 1,3 milhão de hectares, em benefício de 11.656 famílias. Só no estado de São Paulo são 45 processos em andamento. Entre os 30 novos quilombos, o mais populoso é o de Concei­ção das Crioulas, em Salgueiro (PE), com 750 famílias, e a menor comunidade é a de Preto Fôrro (RJ), com apenas 12 famílias.

O FPRMA também pretende fazer um mapeamento das casas onde são celebrados ritos afro-brasileiros no Paraná. Segundo Miranda, justamente por causa do preconceito, muitos seguidores da religião preferem não se expor. “Queremos saber quem são e onde estão as pessoas que seguem as religiões de matriz africana no estado”, diz o ogã. Dado da Federação Paranaense de Cultos Afro-Brasi­leiros aponta a existência de 286 ca­­sas de umbanda e candomblé no Paraná. “Mas pelo receio que as pessoas têm de se expor, acreditamos que sejam muito mais”, explica Miranda.

Além do lançamento do fó­­rum, a comemoração da Semana Nacional da Consciência Negra também integra uma exposição que se encerra hoje e inclui arte africana, orixás e fotografias, entre outros objetos, na sede do Instituto Edusol (Rua José Bonifácio, 15, na Praça Tiradentes, ao lado da catedral).

Núcleo

Aproveitando a data, o Instituto Federal de Educação do Paraná (IFPR) assina hoje a criação do Núcleo de Estudos Afro-Brasi­­leiros. O diretor de Inclusão Social e Meio Ambiente do IFPR, Valter Roberto Schaffrath, explica que o núcleo terá a participação de toda a comunidade acadêmica, bem como de outros membros da sociedade.

Entre as atribuições do núcleo está a elaboração das regras para a aprovação dos estudantes por cotas raciais e sociais no primeiro processo seletivo do instituto, a ser feito em fevereiro. “Além de definir o método a ser utilizado nas cotas do processo seletivo, o núcleo também servirá para debater e combater o racismo na instituição e na sociedade”, aponta Schaffrath.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O BESOURO E A CONSCIÊNCIA





























KAWO KABIECILE!!!!


Esta semana, fui assistir a BESOURO, O FILME.
Poderia escrever aqui que achei o filme sensacional, mas, não consigo encontrar uma palavra que defina na real dimensão esta película.
Um mestre de capoeira baiano, negro, vivendo no Recôncavo Baiano em 1924, há menos de 40 anos da abolição, mas, ainda sim, vivendo (assim como seu povo) as mazelas e as humilhações que só sofre quem possui a pele negra.
Mesmo assim, ele foi corajoso e, praticamente sozinho (só tinha ao lado dele a mulher amada e seus Orixás), enfrentou o status quo.
Besouro deve ser um exemplo para os negros brasileiros de ontem, de hoje e de sempre. Todo o cidadão negro, toda a cidadã negra, deve ter a consciência de que é igual, de que não deve permitir que sua cultura seja sufocada. Prestemos muita atenção, pois, até hoje (de forma bem mais sutil, é claro), as tentativas de sufocar e até de extinguir a cultura negra continuam. A apropriação é hoje, sem sombra de dúvidas, a forma mais sutil e eficaz encontrada pela elite branca e pela mídia (seu mais forte braço) para acabar com o histórico protagonismo negro em nossa sociedade. Reflitam sobre isto.
Hoje é dia da Consciência Negra. Não lembro de nenhum outro feriado que incomode tanta gente. Alguns de vocês, que não estão aqui no Rio, não têm este dia como feriado. Pois é, o racismo neste país é tão grande, que este feriado não conseguiu tornar-se nacional.
Quem me conhece sabe, não sou muito adepto a feriados, mas, 20 de novembro é o único feriado que defendo. Sabem por quê? Primeiro, por ser o dia da Consciência Negra e, só por isso, já se basta, mas, se ele incomoda tanto, é por que é o único feriado que realmente mexe na consciência de todos.
Os negros, principalmente através do sincretismo religioso, comemoram alguns feriados em comum com o "oficialismo". Entre eles, o 23 de abril, dia de São Jorge oficialmente e dia de Ogum para os praticantes dos cultos afro-brasileiros, Mas, 20 de novembro, toca de fato na consciência, afinal, Zumbi não é santo e, por conta disso, não foi sincretizado com nenhum santo católico. Por isso incomoda.
Cada um de nós deve ter na ponta da língua a resposta para os argumentos preconceituosos com relação ao dia de hoje, sintetizados em uma definição: PRECONCEITO RACIAL. O Brasil é um país racista sim. Precisamos ter esta consciência e precisamos lutar para mudar esta realidade, pois, o que seria deste país sem o povo negro?

SARAVÁ!!!!




quinta-feira, 19 de novembro de 2009

POLÊMICA EM AULA SOBRE NEGROS EM BRASÍLIA


Matéria publicada no Correio Braziliense em 19 de novembro de 2009


TAGUATINGA » Aula sobre negros gera polêmica no Centro Educacional nº 4 Na comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra, a referência aos orixás provoca desentendimento entre estudantes e professor

Rosane Garcia

Publicação: 19/11/2009 09:47 Atualização: 19/11/2009 12:04

Às vésperas das comemorações do Dia Nacional da Consciência Negra — 20 de novembro, data da morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares(1) e referência da resistência do povo africano à escravatura —, um conflito entre a religião e o ensino de história e cultura africana e afrobrasileira mudou a rotina do Centro Educacional nº 4 de Taguatinga. De um lado, o professor Francisco Albuquerque Santos Filho; de outro, alunos católicos e evangélicos do 1º ano do ensino médio. Os estudantes insurgiram-se contra a temática deste ano referente aos orixás cultuados nos terreiros de candomblé. Eles se recusaram a fazer um dos painéis programados ainda em setembro como estratégia do professor para debater os mitos africanos.

Francisco Albuquerque ensina história e cultura africana e afrobrasileira: devolvido à Regional de Ensino - (Carlos Moura/CB/D.A Press)
Francisco Albuquerque ensina história e cultura africana e afrobrasileira: devolvido à Regional de Ensino
Os painéis comporiam o cenário para a agenda de atividades de amanhã, em homenagem a Zumbi, com enfoque nas manifestações culturais brasileiras, originárias das danças, jogos e lutas dos povos africanos, como maracatu, maculelê, capoeira, congada, reisado, tambor de mina e jongo. Ao lado dessas expressões, ocorreriam diversas palestras.

O desentendimento chegou à direção da escola, que acolheu as ponderações dos estudantes e acabou devolvendo o professor Francisco Albuquerque à Diretoria Regional de Ensino (DRE). Para a direção do Centro Educacional nº 4, na homenagem a Zumbi, não cabe a difusão do ritual das religiões de matriz africana.

De acordo com o vice-diretor do CED 4 de Taguatinga, Raimundo Monção, desde agosto, a diretoria vinha recebendo queixas dos alunos por causa do andamento do projeto. Segundo ele, os estudantes alegavam que eram obrigados a praticar os rituais do candomblé, em vez de aprenderem sobre a história e a cultura africana e afrobrasileira. “A Constituição diz que o Estado é laico e que todos nós temos direito à cultura e à religiosidade, mas cada um na sua. Então, ninguém pode obrigar uma pessoa a praticar o culto que não quer. E é o que estava acontecendo na escola”, conta Monção.

“Gesto de intolerância”
O professor rebate: “Nunca pretendi ensinar o ritual do candomblé aos alunos”. Ele garante que a religião das diferentes etnias africanas trazidas ao Brasil no período colonial foi o elemento de união de todas elas e de resistência ao tratamento desumano dispensado pelos senhores de engenho aos negros. Albuquerque lamenta o comportamento da direção da escola. “Foi um gesto de intolerância, ela poderia ter mediado a resistência dos alunos em trabalhar a mitologia africana.”

Monção afirma que, por várias vezes, a equipe diretora conversou com o professor Albuquerque para que ele mudasse a vertente do projeto. “Poderíamos, sim, fazer um projeto cultural, desde que ele não tivesse afinidade com nenhuma religião. No entanto, não tivemos sucesso e foi necessário afastar o professor”, diz.

Albuquerque trabalha há três anos a aplicação da Lei nº 10.639/2003 com os alunos do ensino médico. A lei inclui no currículo da rede de ensino a obrigatoriedade da temática história e cultura africana e afrobrasileira.

O professor diz ainda que busca, em suas aulas, ensinar como os costumes e os hábitos dos negros africanos contribuíram para a cultura brasileira. “Não fico restrito à história da religiosidade africana e às suas expressões atuais, mas ensino a trajetória desde a África antiga, um continente rico e próspero, passando pela ocupação europeia do território africano, o início da escravidão, o embarque de negros para o Brasil até chegarmos ao processo de submissão desumana imposta aos africanos”, explica.

1 - Símbolo
Localizado na Serra da Barriga (AL), o Quilombo dos Palmares abrigou, por mais de um século, os escravos — negros e índios — fugitivos da escravidão. Palmares tornou-se um ícone da luta dos negros e afrodescendentes a todas as formas de opressão. Seu líder de maior expressão foi Zumbi. A partir de 1694, investidas cada vez mais agressivas foram feitas contra o quilombo. Zumbi acabou morto em emboscada em 20 de novembro de 1695.

Alunos não queriam candomblé
Estudantes mostram os trabalhos para o dia em homenagem a Zumbi - (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Estudantes mostram os trabalhos para o dia em homenagem a Zumbi
Alunos do CED 4 se manifestaram sobre a polêmica. Com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) na mão, o presidente do grêmio estudantil, Edgar Froes, 18 anos, afirma que o aluno tem liberdade de crença e culto religioso e, mesmo assim, o professor estava obrigando os estudantes a praticarem um culto religioso. “Era para ser um trabalho cultural, mas acabamos caminhando só para o lado da religião.”

Para o aluno Diego Nunes, 16, ensinar a cultura afrobrasileira é importante, mas o trabalho poderia ter sido conduzido de outra forma. “Nossa turma resolveu fazer os orixás por ser uma questão cultural, mas expor do jeito que ele queria, eu acho que seria constrangedor. Tinham uns bonecos com faca na cabeça, acorrentados. E o professor queria que a gente fizesse a dança jogada de rede, que só é dançada em terreno de candomblé”, argumenta.

Os estudantes se queixaram ainda que todo o material necessário para o trabalho tinha que ser comprado por eles em casas de candomblé, conforme orientação do professor. Segundo eles, houve quem gastasse R$ 300 para montar os orixás. “Ele obrigava a comprar os materiais e ameaçava não passar a gente de ano caso não obedecêssemos a orientação”, acusa Maria Kamila Tavares, 15.

Apesar da polêmica, o vice-diretor afirma que a escola não deixará de comemorar a data. Porém, a programação será readaptada, sem “práticas de religião”. As homenagens a Zumbi somente ocorrerão na semana que vem.


Diretoria regional vai apurar o caso

A Diretoria Regional de Ensino de Taguatinga acatou a devolução do professor Francisco Albuquerque. Albuquerque foi transferido de imediato para o Centro Educacional 7, até que o caso seja apurado. “Se verificarmos que não houve culpa, o professor volta para a escola de origem”, explica Sueli Kazuko, assistente da DRE de Taguatinga. Se for culpado, Albuquerque será incluído nas punições administrativas previstas em lei. A Secretaria de Educação não se pronunciará sobre o assunto.

A intolerância de certas religiões com crenças de matrizes africanas é lembrada por Carlos Moura, assessor especial da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). “Tenho a impressão de que houve preconceito quanto à simbologia de uma dança que pudesse fazer referência aos orixás. Mas, se o professor quis obrigar alunos à prática religiosa, também não está certo. É preciso apurar e, se for o caso, punir”, afirma ele.

Na avaliação do padre Ari Antônio dos Reis, membro da pastoral afrobrasileira, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a cultura deve ser trabalhada no sentido amplo, não com rituais. O padre apoia o ensino da temática nas escolas, mas acredita que o ideal seria trabalhar os aspectos estruturantes da religião.

Para o vice-presidente da Igreja Batista Central de Brasília, pastor Ricardo Espíndola, o professor foi “infeliz” ao planejar o trabalho. “A minha religião não é a expressão máxima da cultura brasileira nem a minha cultura se resume à minha religião. Não posso obrigar uma pessoa que faz parte de um credo diferente a participar de rituais do meu credo.”

KAWO KABIECILE!!!!

Deixo aqui apenas duas perguntas: haveria tanta polêmica se o professor sugerisse à turma que rezassem um Pai Nosso, uma Ave Maria ou fizessem um trabalho reverenciando santos católicos? Por que este feriado (ou esta data) incomoda a tanta gente? Reflitam.

SARAVÁ!!!!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

MIKAEL- Parte 3... * Por André Cozta


Mikael acordou em um lugar diferente, paradisíaco. Estava em uma cidade, uma cidade linda e enorme, no alto de uma montanha. Era a montanha mais alta que já havia visto, pois, ultrapassava as nuvens. Estranhava, porque sempre olhou para cima para ver as nuvens e, agora, pela primeira vez na vida, para vê-las, tinha de olhar para baixo.
O Anjo Negro estendeu-lhe a mão, ajudando-o a levantar-se. Ele (mal acreditando no que estava vendo e vivendo, pensando estar sonhando) coçou os olhos e perguntou:
- Onde estou? Que lugar é este? Quem é você?
- Eu, meu filho, sou quem você quiser que eu seja.
- Como assim?
- Eu sou aquele que orienta e guia você, desde antes de você nascer.
Gaguejando, Mikael perguntou:
- C-como assim?
- Você pode, Mikael, meu filho, chamar-me de seu Anjo de Guarda ou, se preferir, chamar-me de seu Orixá.
- Anjo de Guarda, minha mãe sempre me disse que eu tinha um, nunca acreditei, mas, Orixá... o que é isto?
- Meu filho, é fundamental agora, que você saiba que cuido de você, protejo você, mostro os caminhos. Está certo que nem sempre você os seguiu, mas, nem por isso eu o abandonei. Estarei sempre por perto, guiando-lhe.
- Estou começando a entender, mas, mesmo assim, quem é você? Qual o seu nome?
- Está bem, se isto é tão importante para você, Mikael, meu nome é Aganju, sou o Arcanjo Aganju. Chamam-me também de Xangô Aganju, pois, trabalho dentro da vibração deste Orixá.
Mikael ainda sentia-se um pouco confuso, mas, também sentia uma paz e uma segurança como nunca sentiu em outro momento em sua vida. Seu coração começou a apertar e, em seguida, foi tomado por uma alegria imensurável. Sentiu suas pernas amolecerem, seus ombros ficarem leves e, quase que involuntariamente ele ajoelhou-se, começou a chorar copiosamente, pôs a cabeça no chão, elevou as mãos por sobre sua cabeça e começou a falar palavras que saíram sem pensar:
- Kawo Kabiecile, Meu Pai!!!! Salve a sua força, Aganju, Meu Arcanjo Protetor!!!!
Aganju, com a mão direita, passou seu machado de duas faces sobre a cabeça de Mikael, estendeu-lhe a mão, ele levantou-se ainda enxugando lágrimas, olhou para o Arcanjo e disse:
- Meu Pai, como fui tolo durante toda a vida! Sempre achei que eu me bastava, que tudo que consegui era somente pela minha força. Agora, vejo que o Senhor foi fundamental em minha caminhada.
Olhando no fundo dos olhos de Mikael, o Arcanjo disse:
- Vamos passear pelo reino, meu filho, venha conhecer a minha morada... que também é sua.
E ambos saíram a passear por aquela cidade. O sol brilhava, um brilho muito mais intenso do que qualquer dia de sol visto por Mikael em Paris ou no Rio de Janeiro. E o mais curioso: o sol brilhava, mas não queimava. Mikael não suava, não sentia calor e nem frio. Continuaram a caminhar, Mikael não parava de olhar para a vegetação do lugar, nunca havia visto tanto verde... um verde intenso e vivo. Aproximaram-se de um castelo. Aganju, estendeu com a mão direita o machado sobre o peito de seu filho, que, sem perguntar ou falar qualquer coisa, entendeu e parou. Virou-se para Mikael e falou:
- Agora, meu filho, você vai conhecer o meu castelo. É daqui que eu, com a contribuição dos anjos e samaritanos que aqui labutam, trabalho para proteger e abrir caminhos para você e todos os seus irmãos.
- Sim, mas, quem são os meus irmãos?
- São muitos, meu filho, milhões que vivem na Terra sob minha proteção e minha tutela.
Mikael não falou nada, apenas olhou no fundo dos olhos de Aganju e percebeu que não precisava falar, que poderia comunicar-se através do olhar com seu Orixá.
E Aganju disse:
- Exatamente, meu filho, agora, aqui comigo, você pode entender tudo olhando nos meus olhos, pois, os olhos são o espelho da alma. Mas, quando não estiver comigo e não puder me olhar, você ouvirá o que tenho a dizer.
- E como farei isto?
Aganju sorriu e disse:
- Você saberá, na hora, você saberá. Agora vamos.
Aganju cruzou os braços sobre o peito, mantendo na mão direita o machado de duas faces e na mão esquerda sua espada de ouro e, instantaneamente, abriu-se a porta do castelo. A abertura da porta mostrou dois soldados que, do lado de dentro, esperavam a chegada do Rei. Os soldados, também Arcanjos, possuíam asas, brancas e reluzentes, porém, menores que as de Aganju.
- Venha, meu filho, entre na morada de seu Pai, que também é sua.
Adentraram o castelo. Mikael, perplexo, boquiaberto, pensou estar sonhando e que poderia acordar a qualquer momento.
- Você não está sonhando, meu filho. Está aqui comigo, por que chegou o dia da revelação.
- Revelação?
Aganju nada respondeu, continuou a caminhar e Mikael o seguiu. Aproximou-se de um trono, que estava sendo guardado por outros dois soldados arcanjos, sentou-se, colocou seu machado em um apoio ao lado direito e a espada em uma bainha ao lado esquerdo do trono. E começou a falar:
- Mikael, meu filho, você finalmente chegou aqui, por que precisa saber algumas coisas que não sabe sobre você mesmo.
Mikael nada falou, apenas sacodiu a cabeça, lenta, discretamente e afirmativamente. O Arcanjo prosseguiu:
- Sou o Arcanjo Aganju (ou Xangô Aganju, como muitos chamam, por que trabalho na vibração deste Orixá) e sou seu pai de cabeça. Eu cuido de você, desde muito antes de você nascer. Para falar a verdade, há várias encarnações. Posso ser considerado também o que, a grosso modo, as pessoas chamam de anjo de guarda. Você precisa saber, meu filho, que está chegando a hora de você cumprir sua missão nesta vida.
O Arcanjo olhou para o anjo-soldado que estava a seu lado direito e disse:
- Traga o amuleto preto e branco.
Imediatamente, o soldado trouxe o amuleto e entregou-o a Mikael. Aganju olhou para o anjo-soldado que estava a seu lado esquerdo, nada falou, o soldado retirou-se e voltou em poucos instantes com um amuleto vermelho e preto.
Mikael, segurando o amuleto preto e branco na mão direita e o vermelho e preto na mão esquerda, perguntou:
- Meu Pai, qual o significado destes amuletos? Para que servem? O que devo fazer com eles?
- Mikael, meu filho, você carregará estes amuletos consigo até o último instante desta sua encarnação. Ambos, serão a minha representação em sua vida. O que você carrega na mão direita, representar-me-á nos momentos em que você necessitar de esclarecimento, luz, harmonia, saúde, firmeza na cabeça e paz no coração. O que você carrega na mão esquerda, representar-me-á na abertura de seus caminhos para as questões materiais, para protegê-lo na rua, de todas as mazelas do mundo carnal e das baixas vibrações que rondam o plano em que você vive.
Mikael continuou olhando seu Pai atônito, curioso e apaixonado. Aganju prosseguiu:
- Meu filho Mikael, você não estudou arquitetura por acaso. Quando eu apareci para você sobrevoando os Arcos da Lapa, justamente no momento em que você pensava o que poderia ser feito para melhorar aquele lugar, foi um sinal. E, esta é a parte mais importante da revelação: você usará de seus conhecimentos para melhorar ambientes como aquele e tantos outros e, também, a vida de pessoas necessitadas. Com meu machado e minha espada, apoiado pelas vibrações dos amuletos que representar-me-ão em sua vida até o último instante, abrirei caminhos e você, a partir de hoje, será o arquiteto da justiça. Trabalhará, como bom filho de Xangô, filho de Aganju, buscando justiça para os necessitados, buscando uma vida melhor para os desfavorecidos.
- Mas, como farei isto, Meu Pai?
O Arcanjo Aganju sorriu e disse:
- Você saberá. Meu filho, agora, você vai voltar para seu lugar e, de lá, iniciará esta bela jornada cumprindo tudo o que lhe foi passado antes de encarnar. Não aceitarei recuos. Nâo esqueça que a justiça de Xangô é implacável.
De cabeça baixa, em reverência a seu Pai, Mikael disse:
- Sim, Senhor!
Aganju olhou para os soldados e disse:
- Levem-no embora.
Mikael acordou em sua cama, sentiu-se leve, como nunca antes, olhou para o lado direito do travesseiro e viu o amuleto preto e branco. Imediatamente, olhou para o lado esquerdo do travesseiro e viu o amuleto vermelho e preto. E pensou em voz alta:
- Meu Pai, o que será de mim a partir de agora?



Continua...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009


KAWO KABIECILE!!!!

SARAVÁ AGANJU!!!!!!!

AFRO SUL 35 ANOS


O grupo de música e dança Afro Sul comemora 35 anos de existência, resistência e militância em Porto Alegre, com uma trajetória marcada por muitas dificuldades, preconceito e falta de recursos financeiros. Pensando nisso, estão promomvendo um evento para trazer ferramentas e estímulo para grupos iniciantes de dança afro ou que encontrem dificuldades no acesso à pesquisa ou maior visibilidade e sustentabilidade para seus grupos, além de tratar de assuntos pertinentes à àrea de educação, mostrando maneiras de inserir a cultura afro no currículo escolar. O I ENCONTRO AFRO SUL DE DANÇA AFRO, ocorre nos dias 13, 14 e 15 de novembro de 2009, promovendo seminários, oficinas práticas e mostras coreográficas de grupos iniciantes, tendo como objetivo a capacitação e abertura de portas de teatros para a dança afro-gaúcha, além de uma troca de experiências em uma atmosfera da dinâmica da dança afro.

13/09:

16h- Início do Credenciamento na sede do Afro Sul Odomode

19h- Abertura: Apresentação da proposta do evento

19:30h- Seminário: "SUSTENTABILIDADE A PARTIR DA QUALIFICAÇÃO"


14/09:

08h- Credenciamento
08:30h- Oficina: "ELABORAÇÃO DE FIGURINOS E ADEREÇOS"
10h- Coffee Break

10:30h- Oficina: "EXPRESSÃO CORPORAL"

12:30h- Intervalo

14h- Seminário: "O TEATRO NO CONTEXTO COREOGRÁFICO"

15:30h- Coffee Break

16h- Seminário: "O PAPEL SÓCIO-EDUCATIVO DA DANÇA E DA MÚSICA"

18h- Encerramento

19h- Apresentações Artísticas no Multipalco do Theatro São Pedro
1

15/09:

08:30h- Seminário: "A CONTRIBUIÇÃO DA DANÇA AFRO NA LEI 10.639/03"
12h- Intervalo

14h- Oficina: "CONSTRUÇÃO COREOGRÁFICA E O CONTEXTO MUSICAL"

16:30h- Encaminhamento
17h- Confraternização


O Afro Sul Odomode fica na Av. Ipiranga, 3850- Porto Alegre/RS

sábado, 24 de outubro de 2009

À UM AMIGO (E À TANTOS OUTROS QUE NÃO CONHECI)



KAWO KABIECILE!!!!


Para
recuperamos a dignidade, para termos amor ao próximo, precisamos recuperar o amor próprio.
Tudo o que vimos na mídia esta semana (guerra nas favelas do Rio, mas, principalmente, as violentas mortes que chocaram a todos) é fruto da podridão da nossa sociedade.
Quando um irmão mata o outro com uma ou duas marretadas, ouvimos todo o tipo de comentário. Mas, o que leva um ser humano a fazer isto? Quando alguém leva um tiro e é vítima de omissão de socorro por parte do Estado (a polícia é o Estado na rua), também ouvimos todos os comentários imagináveis.
Mas, por que chegamos a este ponto? O que está nos embrutecendo? Onde está o "nosso coração"? Nâo precisas me responder, responde à tua consciência.
Este blog é do meu Pai, eu apenas o modero e, por isto, procuro sempre escrever além do pessoal, procuro sempre escrever sobre o "sentimento geral" e não sobre o meu sentimento. Mas, desta vez eu não estou conseguindo e, com a permissão do dono deste Blog, segue o desabafo:
Desde que entendo-me como habitante deste mundo, vejo cenas de violência na televisão, sempre fiquei chocado. Mas, desta vez, ver um amigo sendo assassinado e tendo socorro omitido pela polícia, foi demais!!!!
A Carta Magna de nosso país, a Constituição da República Federativa do Brasil, garante-nos o direito de ir e vir (clap, clap, clap, clap, clap, clap, clap... um milhão de aplausos!), mas, não nos garante segurança na ida e muito menos na vinda. Então, acuemos, fiquemos em casa. Esta é a solução? Não saiamos mais à rua, afinal, parafraseando Herbert Vianna: "A polícia apresenta suas armas, escudos transparentes, cassetetes, capacetes reluzentes e a determinação de manter tudo em seu lugar". E eu pergunto: em qual lugar mesmo, cara pálida?
Coincidência ou não, esta música chama-se SELVAGEM.
Ao contrário do braço armado do Estado, nossa única arma é o grito. E não devemos ter medo, vamos gritar até gastar nossas vozes. Não dá pra ficar deste jeito! Precisamos de respeito e, acima de tudo, educação. Só a educação pública de qualidade (por que nunca a tivemos de fato neste país de Olimpíadas e Copa do Mundo) fará uma sociedade melhor no futuro, a curará de todas as mazelas. Por que, neste momento, não tem jeito, para melhorarmos algo, devemos recorrer aos curativos. E o grito, agora, é o mais eficaz. Paralelo ao curativo, em doses homeopáticas, devemos aplicar o remédio: educação de verdade para nossas crianças.
Este blog é do Orixá da Justiça. Então, gritemos por JUSTIÇA!!!!... que vai além de punir os policiais, prender os assassinos de Evandro e Caio. Ela será plena quando pudermos andar na rua com tranquilidade.
Ao meu amigo Evandro João: obrigado por teres feito parte da minha vida. "Véio", foi um privilégio para mim ter convivido contigo. Talvez, nem tenhas te apercebido, mas, entre tantos momentos na Lapa (ah... a nossa Lapa!), tuas palavras me aliviaram, teu sorriso trocou a angústia que eu sentia por momentos de alegria. Obrigado por teres sido o ombro amigo na hora do choro, quando eu achava que nada mais daria certo.
Parabéns, meu "véio", pela linda missão que cumpriste neste plano, como ser humano, amigo de todos e como soldado do AfroReggae! Sei que em breve, estarás trabalhando, como sempre, para ajudar aos que precisam. Fica em paz, pois, nós continuaremos tentando a paz por aqui. Até a próxima.

SARAVÁ!!!!


**** Abaixo, texto de nossa amiga Sandra Oliveira, que também está fazendo de tudo para amenizar sua dor.

UM ATÉ BREVE


É com pesar que meu coração fala.
É com tristeza que minha alma se emociona.
Vejo que impossíveis acontecem de maneiras diversas todos os dias.
E neste momento não consigo identificar ao certo o que aconteceu. Tudo parece escapar de minha ínfima compreensão.
Rascunho palavras para expressar algo. E um misto de tristeza, indignação, agonia e dor toma conta de mim.
Meu lamento não adianta em nada, não faz mágica nem conta pontos para trazer tudo de volta. Sentimento medíocre este, sem efeito nem valor algum. O que tem valor é o que ficou; a alegria, os sorrisos, as falas, palavras e memórias.
Meu choro nunca foi tão intenso e reservado, acho que está calejado de tanta tristeza, quer chorar agora só alegrias.
Neste exato momento, uma lembrança maior brindou meus pensamentos e elevou minha mente ao cume de um monte de consolo e paz, de onde tenho a certeza de que foi de lá que ouvi sua voz convidando-nos à ficar perto do seu coração, que sempre esteve cheio de compreensão e luz.
Grande beijo IRMÃO e até breve!

Sandra Oliveira

sábado, 17 de outubro de 2009

MIKAEL- Parte 2... * Por André Cozta

No dia seguinte, Mikael não conseguiu parar de pensar naquela noite. Aquela visão nos Arcos da Lapa, aquele sonho... por que isto estava acontecendo com ele? Sempre foi agnóstico. Sempre respeitou as crenças populares, as religiões, mas, sempre analisou-as de forma sociológica e, até mesmo, antropológica, nada além disso. Nunca rezou, sempre pensou depender de si próprio para conseguir tudo o que almejou na vida, sempre achou que conseguiria tudo andando com suas próprias pernas. Nunca entendeu porque as pessoas apegavam-se ao invisível. Para ele, a solução para tudo estava dentro de cada um.
E agora, contrariando tudo em que sempre acreditou, na mesma noite, viu um anjo voando em plena Lapa e sonhou com ele em seguida. Pensou: "- Só posso estar ficando maluco, não há outra explicação para isto." Continuou refletindo, a noite caiu. Concluiu: "- Vou procurar por Andrea, ela, com certeza, pode ajudar-me."
Andrea, psicóloga, amiga de Mikael desde sua chegada ao Brasil, foi colega dele em seu primeiro trabalho na Cidade Maravilhosa.
Naquela noite, Mikael dormiu um sono profundo. Acordou no dia seguinte, tomou seu habitual café da manhã com suco de laranja e frutas. Após a refeição, pegou seu celular e ligou para Andrea.
- Alô... Andrea?!
- Não acredito!!!!!!! Meu francesinho, por onde você andava? Quanto tempo?
- Tenho andado muito atarefado. Andrea, preciso conversar com você, aconteceram coisas estranhas comigo. Na noite passada...
Andrea o interrompeu:
- Querido, venha até meu consultório hoje após o almoço, estou com um horário livre e posso atender você, podemos conversar à vontade.
- Obrigado, Andrea, estarei aí.
À tarde, Mikael foi recebido por Andrea, que o aguardava sozinha no consultório. Ela deu um longo e afetuoso abraço no amigo e disse:
- Meu querido, quanto tempo?! Mais de um ano sem te ver! Ai, que coisa boa estar aqui contigo!
- É verdade, Andrea. Muitas vezes, nos distanciamos dos amigos sem perceber.
- Mas, me conte Mikael, o que está incomodando você? Está com um ar de assustado.
- Andrea, na noite passada, andando pela Lapa, vi um anjo... um anjo negro sobrevoar os Arcos. Mais tarde, sonhei com este anjo, em uma praia, olhando-me. Seu olhar era intrigante e, ao mesmo tempo, fazia sentir-me como sentia-me quando criança, aprontava alguma e meu pai olhava-me repreendendo-me.
Andrea, sentada à frente de Mikael, de braços cruzados, sorriu e disse:
- Mikael, meu querido amigo, em poucas palavras: você está muito solitário e, por isso, tem-se voltado para seu interior. Sei que você é um homem caseiro, que não gosta muito de ficar na rua, mas, você precisa sair mais, distrair-se, conhecer gente nova, conhecer meninas...
- Andrea, eu sempre gostei de viver assim. É verdade que, depois da morte de minha mãe, fiquei muito sozinho no mundo. Mesmo morando aqui no Rio há quase 10 anos, ainda sou sozinho, vivo sozinho na maior parte do tempo.
- Você precisa de companhia Mikael, você precisa dividir sua vida com alguém.
- É (Mikael está cabisbaixo)... Andrea, talvez você tenha mesmo razão.
Ele levantou a cabeça, olhou para Andrea e disse:
- Vou pensar seriamente no que você me falou. Acho que é hora de mudar de atitude, mesmo.
- Conte comigo, francesinho, sempre que precisar.
Mikael sorriu e disse:
- Eu sei disso. Muito obrigado por tudo.
- Não há o que agradecer, Mikael, amigos são amigos. E, por serem amigos, estarão perto de nós sempre que precisarmos.
Mikael sorriu, levantou-se, Andrea também. Eles abraçaram-se, Andrea o acompanhou até a porta do consultório. Mikael beijou a face de Andrea e disse:
- Tchau, Andrea!
- Até mais, Mikael!
Mikael, andando pela rua sem destino, começou a pensar novamente em tudo. Andrea era sua amiga do coração, mas, agora, tinha mais questionamentos. Chegou em casa, ligou para alguns amigos, viu emails, conversou com algumas pessoas por um chat. Foi tomar banho.
Já era noite, após o banho, Mikael ligou a tv de seu quarto, deitou-se e começou a zapear, procurando algum programa para passar o tempo. Sentiu sono e cochilou.
A janela de seu quarto estava aberta. A noite era quente, mas, de repente, um vento rápido e forte levantou a cortina e um raio de luz adentrou o quarto de Mikael. Numa fração de segundo, a luz tomou forma humana... de anjo. O Anjo Negro estava, naquele momento, ao lado de Mikael, observando-o dormir.
O Anjo passou a mão direita sobre os olhos de Mikael, que acordou instantaneamente. Ele ficou estático, paralisado, sem saber o que fazer. O Anjo estendeu a mão direita, pegou na mão de Mikael, que continou paralisado, olhando para aquele Anjo Negro. O Anjo disse:
- Venha comigo...

Continua...
KAWO KABIECILE!!!!

Viva as Olimpíadas no Brasil! Viva as Olimpíadas no Rio!
Abaixo, texto do companheiro Luiz Carlos Gá, saudando mais esta conquista do nosso país.


SARAVÁ!!!!

PREFEITURA DO RIO RACISTA????

















Me nego a acreditar que nosso prefeito Eduardo Paes tenha autorizado ou mesmo visto a homenagem à conquista das olimpíadas de 2016, estampada na fachada principal da sede da prefeitura (veja fotos que acompanham este texto).
A ternura com que o nosso querido prefeito tem com a população negra no contato de rua não condiz com esta atitude racista.
Prefiro atribuir essa coisa vergonhosa, financiada também com o dinheiro da população negra dessa Cidade, ao racismo incorporado no inconsciente de alguns publicitários, que, como sempre, usam a estratégia de disfarçar o seu racismo, oferecendo alguma consolação, como é o caso dos banners bem menores fixados nos pontos de ônibus.
Tenho certeza que após essa denúncia, o nosso prefeito vai mandar corrigir essa imprudência, e como colaboração, sugiro que se mantenha essa justa homenagem com uma criança negra, uma branca e uma índia. A rigor deveria ser duas negras, uma índia e uma branca, afinal nós negros somos maioria, mas já vi que o espaço não comporta quatro crianças. Sugiro também que suspenda imediatamente o contrato com essa agência de publicidade, que exonere o secretário responsável pela aprovação dessa campanha, e que, em nome da decência, solte uma nota pedindo desculpas a população da Cidade Maravilhosa, é o mínimo que se pode fazer pelo seus eleitores e pela população como um todo.
Peço a negrada consciente da nossa Cidade que se manifeste de alguma forma.
ALÔ COMDEDINE!!! ALÔ CEDINE!!! ALÔ SECRETARIAS E/OU PROGRAMAS MUNICIPAIS E/OU ESTADUAIS ENCARREGADOS DE DEFENDER O DIREITO DO NEGRO E/OU DIREITOS HUMANOS!!!
ACORDA CRIOULO!!!
DIVULGUE NEGRADINHA!!!
Luiz Carlos Gá