sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Conto de Exu











Relataremos aqui, brevemente, uma série de situações que se passaram na vida de um determinado homem, ao qual não nomearemos. Em primeiro lugar, por que seu nome realmente não  importa e, em segundo lugar, a fim de que a sua atenção se volte, tão somente, para o objetivo central deste relato.
Ele andava pela rua, certa tarde, visivelmente preocupado com o rumo que sua vida havia tomado.
Era um homem de negócios, ocupava um cargo executivo importante em uma grande empresa. Como chefe que era, delegava funções aos seus subordinados. Em alguns momentos, era implacável em julgamentos, em outros, encontrava no equilíbrio e na ponderação,  o caminho que o levava a tomar decisões acertadas.
Era, tipicamente, um ser humano encarnado em evolução.
Naquela tarde, saiu mais cedo do trabalho, foi até um botequim que costumava frequentar, acomodou-se, pediu uma bebida e se pôs a pensar.
Não entendia por que tudo na sua vida oscilava tanto. Se, era um homem bem estabelecido financeiramente, por outro lado, alternava entre altos e baixos emocionalmente, também na sua relação com colegas de trabalho e, inevitavelmente, com as mulheres.
Considerava-se um homem galante e conquistador, apesar de, quase nunca, conseguir emplacar um relacionamento com alguma mulher por mais de  dois ou três meses.
Vivendo desta forma, já se pode perceber que tinha sua “visão” e sua “audição” espirituais completamente fechadas. Era um ser totalmente voltado para a matéria. Respondia automaticamente que acreditava em Deus, sem pensar no que dizia, nem, ao menos, como tantos, tentava imaginar como deveria  ser Deus.
Rapidamente, colocaremos aqui, três situações que ocorreram na vida deste nosso irmão, pouco tempo antes deste momento em que  nos encontramos com ele.

1º Momento:
Numa manhã muito chuvosa, em que uma tempestade tomou conta daquela cidade, ele, reivindicava, com seu carro parado à frente do portão da garagem da empresa, que o funcionário responsável abrisse-o, para que pudesse entrar, estacionar , acomodar-se no seu escritório e fugir da chuva.
O funcionário demorou a atendê-lo, por que estava a poucos metros dali, socorrendo um cachorrinho que se afogava numa esquina por demais alagada.
Assim que retornou, pediu desculpas ao homem impaciente (que estava dentro do carro, são, salvo e seco), que lhe proferiu uma série de impropérios, chegando, inclusive, às vias de ofensas pessoais e familiares.
Ciente dos problemas que poderia ter, caso levasse aquela discussão em frente, o funcionário, abaixou a cabeça apenas, explicou que o portão havia emperrado por conta da chuva e o abriu, para que o homem entrasse.
Já acomodado em seu escritório (ele que, como já disse, tinha olhos e ouvidos espirituais fechados), sentiu  certo  “incômodo”, como se houvesse algo ou alguém à sua volta que não podia identificar.
Sem que percebesse, um sorriso maroto circundava à sua volta. Só sentia o tal incômodo, mas, não sabia do que se tratava, concluiu que era coisa da sua cabeça, que estava nervoso pelo fato de não ter sido atendido quando bem entendia.
      
2º Momento:
Sete dias após aquele episódio, no fim de tarde, quando voltava do trabalho para casa, dirigia  apressado, se é que podemos definir assim quem, irresponsavelmente, corre no trânsito.
Parou em um semáforo. A avenida estava vazia. Apenas uma senhora de idade avançada atravessava a faixa de segurança. E, por conta da sua condição física debilitada, andava vagarosamente.
O sinal abriu, a senhora ainda não havia atravessado, mas, ele, apressado, afundou o pé no acelerador, atropelando-a.
Não foi um acidente grave. Ele atingiu-a na perna, fazendo-a cair.
Imediatamente, parou o carro e, desesperado, foi socorrê-la. Levou-a  a um hospital.
A senhora teve apenas um ferimento leve, que foi tratado, com a médica tendo encaminhado-a para casa em seguida.
Ele, ainda preocupadíssimo e tomado por um enorme remorso, fez questão de levá-la em casa. Deve, sem medo de errar na conta, ter pedido desculpas à ela umas trinta vezes.
Aquela senhora, muito tranquila, no decorrer da viagem, sentada ao seu lado, em dado momento, fitou o rapaz e falou: “Meu filho, peço-lhe desculpas por me intrometer na sua vida, afinal, mal nos conhecemos, mas, percebo em você a busca por algo que, talvez, nem mesmo saiba o que é.  Se há em você um pseudo-vazio, saiba que é um equívoco da sua parte pensar assim. Por que, você, o mesmo rapaz que me atropelou (e que poderia ter fugido e não me prestado socorro), foi o meu ‘salvador’. Poderia ter apenas me deixado no hospital, mas não, está me levando em casa e visivelmente preocupado comigo. Olhe bem para dentro de você mesmo, meu filho. Se assim fizer, tenho certeza, aplacará essa angústia que o acompanha.”
Uma lágrima correu em seu rosto, mas, ele segurou o choro.
Despediu-se daquela senhora com um abraço forte, deixando com ela um cartão de visitas com seus contatos e recomendando que ligasse para ele caso precisasse de qualquer coisa.
Ela apenas deu um sorriso e falou: “Nós nos veremos em breve, meu filho!”
Assim que ela adentrou o prédio, ele começou a chorar copiosamente dentro do carro.
Após alguns minutos, enxugou as lágrimas. Sentia-se bem, muito bem!
Porém, como sua visão e sua audição espirituais eram fechadas, não pode perceber, naquele momento, um sorriso maroto à sua volta.

3º Momento:
Numa das suas inúmeras tentativas em se relacionar com mulheres, aconteceu de conhecer, através de um amigo, uma moça que lhe chamara muito a atenção.
Gostava de conversar com ela, considerava-a uma excelente companhia,  compreensível,  segura nas ideias, além de ser uma belíssima mulher.
Tinham, após algum tempo, encontros periódicos. Um relacionamento sério entre eles surgia.
Ela,  via nele muitos predicados que, até aquele momento, fizeram-na pensar ser aquele o homem ideal para acompanhá-la no restante da sua jornada encarnada.
Porém, não foi preciso mais do que sessenta dias de encontros para que aquele relacionamento começasse  a ruir.
Ele passou a revelar um lado seu que a desagradou e decepcionou.
Desmarcava encontros em cima da hora para ficar com amigos no botequim ou para jogar bola.
Nos encontros, passou a tratá-la de forma ríspida.
Certa  noite,  ela resolveu colocar tudo na mesa, discutiram. Ele perdeu a cabeça e partiu para atitudes violentas, machucando-a bastante.
Aquele foi o momento derradeiro entre ambos.
Na mesma noite, ao chegar à sua casa, percebeu que o elevador estava emperrado, tendo que subir alguns andares de escada. E não bastaram mais do que três lances, para que começasse  a se sentir mal, ficou tonto, caiu escada abaixo, quebrando sua perna esquerda.
Deitado, zonzo, gritou por socorro, que levou alguns minutos para chegar. E sua dor na perna só fazia aumentar.
Enquanto aguardava pelo socorro, sentia corpo e cabeça pesados. Mas, como sua visão e audição espirituais eram completamente bloqueadas, não pode ouvir uma gargalhada marota à sua volta, desde o momento em que agrediu a moça, até aquele, em que estava deitado, com a perna quebrada, clamando por socorro.
No início deste conto, não dissemos que, ao chegar ao botequim, ele se apoiava em uma bengala, mancando. Tinha, após aquele tombo, ficado com um defeito na perna esquerda, que procurava tratar.
Depois daquele episódio, não mais pode jogar bola com os amigos (seu maior hobby) e seu desempenho com as mulheres passou a ser nulo.
Por isso, lá estava, desesperado, bebendo, buscando naquele ambiente uma resposta, uma solução para a sua vida.
Você deve estar questionando, a esta altura da leitura, por que intitulamos este como “Conto de Exu”, se nos detivemos apenas à fatos da vida de um homem comum, não é mesmo?
Ora, é nosso objetivo neste trabalho, mostrar Exu como um Orixá, um Poder Divino, um Estado da Criação.
Volte aos três momentos  e perceba Exu nas ações que se desencadearam a partir das atitudes do rapaz, nos sorrisos e na gargalhada marota.
Mas, se ainda assim, você insiste em humanizar o que é Divino, então, vamos lá:
Ainda sentado naquele botequim, ele, que tinha  visão e audição espirituais completamente bloqueadas, não percebeu uma força que se aproximava, mas que o faria tomar uma atitude que o levaria para outro caminho, a partir daquele momento.
À  sua volta, havia muitos espíritos obssessores, sofredores, sugadores de energias.
Aproximou-se da mesa  “algo” muito superior a eles e a todos que ali se encontravam (tanto encarnados quanto desencarnados).
Um ser masculino, de pele negra reluzente, orelhas pontiagudas, que poderiam ouvir a tudo e a todos ao mesmo tempo, mãos grandes, com dedos compridos, que poderiam agarrar toda e qualquer coisa ou todas as pessoas, ao mesmo tempo, pés grandes, com dedos compridos, que poderiam pisar em qualquer solo, ou, em nenhum, boca grande que poderia falar todas as palavras, dialetos e idiomas ao mesmo tempo, com quantas pessoas fosse necessário, olhos negros grandes, que à tudo viam, nada escapava do seu raio de visão.
Quando se aproximou do rapaz, todos os espíritos que estavam à sua volta dali desapareceram como que num passe de mágica, tendo sido, muito provavelmente, encaminhados para seus lugares de merecimento.
Mentalmente, aquela força falou apenas uma frase: “Estou aqui para garantir que você não se perca novamente. Chega disso! Levante-se e siga, a partir de agora, o caminho correto.”
Ele, que nada percebia, por que tinha audição e visão espirituais fechadas, naquele instante, pediu a conta, pagou-a, levantou-se apoiado em sua bengala e foi ao encontro da velha senhora que havia socorrido.
Se você esperava aqui uma lenda de Exu, saiba que, Negro Velho quis, através deste conto, mostrar que Exu é um Orixá, um Poder Divino realizador, que atua o tempo inteiro, na vida de todos nós e em toda a Criação. 
É um poder manifestado do nosso Pai Criador. E como Poder Manifestado D’Ele, está à nossa volta o tempo todo.
Caminhe corretamente e tenha o Poder de Exu lhe guardando e direcionando. E saiba, que se não caminhar corretamente, ainda assim, ele lhe direcionará.

Conto Ditado por Pai Thomé do Congo
Anotado por André Cozta
Rio de Janeiro- 25 de janeiro de 2013- 23:15h

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Importância de Exu na Umbanda- Por André Cozta






Laroyê, Sagrado Orixá Exu! Senhor Exu é Mojubá!

Com a permissão desta Divindade, discorreremos, a partir de hoje, em três textos, acerca deste Orixá, tão controverso, confuso, e alvo de preconceitos e interpretações errôneas, inclusive, nos meios umbandistas.

Sempre que um umbandista fala em Exu, visualiza seus guias espirituais à esquerda, guardiões, manifestadores dos Divinos Poderes deste Sagrado Orixá e de todos os outros do nosso ritual religioso. Por  isso, nos é comum sempre identificarmos os exus de Oxalá, Xangô, Ogum, Oxum, Obaluayê, etc.

Porém, se temos todos estes guardiões “exus” trabalhando sob  as 7 Irradiações Divinas (Fé, Amor, Conhecimento, Justiça, Lei , Evolução e Geração), manifestando através delas as 7 Essências formadoras do Todo (Cristal, Mineral, Vegetal, Fogo, Ar, Terra e Água), representadas na nossa amada religião pelos quatorze Orixás manifestadores destes Poderes Divinos, também os temos sob a irradiação deste Poder de Olorum, que é o Senhor do Vigor, o Trono da Vitalidade, o Senhor Orixá Exu.

Exu não se encontra em nenhum dos Sete Sentidos da Vida, em nenhuma das Sete Essências, mas, no exterior de todas, guardando-as.

Faz-se necessário que os umbandistas passem a cultuar Exu, enquanto divindade.

Esta necessidade vem se mostrando ao longo dos tempos, com a abertura do Mistério Exu, pelo Sr. Rubens Saraceni, em suas obras, trazidas ao plano material por Mestres Dirigentes do Ritual de Umbanda Sagrada e também com a abertura de um grau magístico: A Magia Divina do Orixá Exu.

Este “cultuar” não implica em “trocar”, ou seja, parar de trabalhar, reverenciar, ofertar seus guardiões “exus” à  esquerda. Muito pelo contrário! Representará um fortalecimento no trabalho do médium para a atuação dos seus guias de esquerda.

Estará acrescendo às suas forças, um Poder Divino realizador por si só, que trará aos seus “exus” guardiões condições de trabalho antes não imaginadas pelo médium.

Pai Benedito de Aruanda nos ensina, através do Mestre Rubens Saraceni, em sua obra “Orixá Exu- Fundamentação do Mistério Exu na Umbanda (Madras Editora)”, que Exu é, também, o Estado do Vazio na Criação, enquanto o Sagrado Pai Oxalá é o Espaço Absoluto.

No instante anterior à Criação no exterior de Olorum, nosso Pai Maior e Divino Criador, havia o caos estabelecido, o Nada, que é denominado  Orixá Exu Mirim. Neste estado, nosso Pai Criador não poderia  exteriorizar o Espaço Absoluto (Pai Oxalá), por isso, exteriorizou, primeiramente, o Vazio (Senhor Orixá Exu), para que, nele, pudesse exteriorizar o Espaço.

Então, quando tínhamos o Nada (Senhor Orixá Exu Mirim), estava instaurado no exterior de Olorum o Plano das Ideias e Intenções.

Quando exteriorizou Exu (o Vazio), passou a ter condições de exteriorizar também o Espaço, que, dentro do Vazio foi estendendo-se e criando o Todo.

Por isso, caro leitor e cara leitora, temos o Senhor Exu como o maior de todos os Sagrados Orixás, pois, se não habita nossos íntimos, como os Orixás manifestadores da Fé, do Amor, do Conhecimento, da Justiça, da Lei, da Evolução e da Geração, o temos à nossa volta, o tempo todo, como o Vazio.

Exu não está em nós, mas, nós estamos em Exu.

Saibam que as tronqueiras (casas de exus e pombagiras), são instaladas fora dos terreiros, por que  são o vazio relativo. Se colocadas dentro do terreiro, instaurarão nele o vazio, impedindo o trabalho dos Orixás e guias da casa.

Do lado de fora, como vazio relativo, receberão todas as energias negativas nelas despachadas por guias e Orixás durante os trabalhos.

Compreender Exu desta forma, como estado do Vazio na Criação, como Poder manifestado de Deus, é compreendê-lo como a própria neutralidade do Todo. Reflita sobre isto!

A vitalidade, o vigor, têm sido associadas à Exu há muito tempo. Assim cristalizou-se no ritual africano.

Já falamos de Exu como Estado do Vazio (ou da neutralidade), como Trono do Vigor ou da Vitalidade, o Senhor da Virilidade, da masculinidade.

Por um acaso, não vemos nestas manifestações divinas (por que toda a Divindade manifesta um Poder de Deus), um “quê” de humanas?

Proponho a você que reflita bem acerca desta minha dissertação.

Preste atenção, irmão(ã) umbandista, no trabalho dos seus guardiões “exus”. E, se verá neles, características dos Orixás que manifestam  nos 7 Sentidos da Vida (Fé, Amor, Conhecimento, Justiça, Lei, Evolução e Geração), também verá características deste Divino Poder, desta divindade denominada por nós, aqui no Brasil, a partir da cultura iorubá,  Orixá Exu.

Recomendo que aprofunde seus estudos acerca deste Orixá, pois, assim, conhecendo-o bem, saberá como atuar em benefício próprio, do seu lar, familiares, e até nos seus trabalhos espirituais, com os Poderes de Exu. Isto sem contar o fortalecimento e abertura do leque de opções de trabalho para seus guardiões “exus”.

 O que  dissertei aqui,  foram apenas alguns pontos, para abertura de uma discussão entre os irmãos umbandistas.

Sugiro que estude o Mistério Exu, aberto ao plano material por Rubens Saraceni.

E a partir destes estudos,  passe a cultuar este Amado Orixá, controverso, alvo de ataques ignorantes, muitas vezes, mas fundamental em nossas vidas, para o Todo, que é a Criação do Pai Olorum.

No dia 25 de janeiro próximo, publicarei  o texto intitulado “Conto de Exu”, enviado por Pai Thomé do Congo. E no dia 29 de janeiro,  encerrarei esta série com o texto “Firmezas de Exu”.

Laroyê Senhor Exu! Saravá Umbanda!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Publico hoje, duas mensagens enviadas pelos Senhores Pretos Velhos Pai Thomé do Congo e João Sabiá, no ano passado, e publicadas na edição 35 do Jornal Nacional da Umbanda (www.jornalnacionaldaumbanda.com.br).
Abordam o tema "Liberdade".
 Leia e reflita!

Liberdade no Horizonte & Canções de Liberdade


LIBERDADE NO HORIZONTE
 
Negro Velho sentado no toco, pitava seu cachimbo.
O menino no seu colo olhava para o céu.
- Menino pode ver, agora que o sol caiu e as estrelas se levantaram, como, mesmo à noite, é belo o horizonte!
- Estou vendo, Vovô! Mas, meu Vovô, por que as estrelas ficam soltas no céu e não caem?
- Por que elas são livres, menino!
- E tudo o que é livre não cai, meu Vovô?
- Depende, menino! Na verdade, há coisas e pessoas que estão soltas por aí, andando sem direção. Outras,estão estagnadas, paradas mesmo, sabe, menino? E tanto aquelas que estão soltas e sem direção, quanto as que estão estagnadas, podem até parecerem livres, mas, em ambos os casos estão perdidas.
- Então, o que eu tenho que fazer para ser livre de verdade, meu Vovô?
- Primeiro, tem que conhecer bem a si próprio. Depois, conhecer o ‘mundo’ que o rodeia. Adquirindo maisconhecimento a cada dia, você será um homem livre de fato, menino!
- Então, eu preciso estudar, Vovô?
- Estudar, se informar, buscar o conhecimento nas suas variadas formas, menino.
- Mas, meu Vovô, o que as estrelas fazem lá no céu todas as noites?
- Elas são os ‘Olhos de Deus’ na escuridão, menino.
- Mas, os ‘Olhos de Deus’ não são livres, Vovô.
- Por que você diz isso, menino?
- Por que elas estão paradas lá no céu. E o senhor disse que tudo o que fica parado pode até parecer, mas não é livre.
- Olhe bem para o céu, menino.
Ele olhou. Negro Velho prosseguiu:
- Está vendo os belos desenhos formados nos espaços entre as estrelas, menino?
- Estou sim, Vovô.
- Isto prova que elas não estão soltas ao relento ou então ‘presas’ no espaço, menino. Estes desenhos mostram que elas estão bem seguras, pois estão enfeitando os dedos dos Sagrados Orixás.
O menino sorriu e entendeu, a partir daquela noite, que a liberdade é conquistada com amor, disciplina, fé e conhecimento.
Olhe para o sol durante o dia, olhe para as estrelas durante à noite.
Depois, olhe para o seu coração. “A sua carta de alforria está dentro dele.”
 
Mensagem ditada por Pai Thomé do Congo
Anotada por André Cozta
 
 
 
 
CANÇÕES DE LIBERDADE.

Quando eu andava por aquela propriedade, nos dias mais calmos, podia sentir o ar quente daquele lugar.
Eu era escravo em uma fazenda no interior de Alagoas. Meu senhor era um homem de poucos amigos e talhado na crueldade, porém, eu, até então, tinha a sorte de contar com a simpatia dele.
Após um tempo, descobri que ele me preservava, por que gostava dos meus assobios.
Meu nome era João. Nasci em uma fazenda vizinha, filho de uma angolana e um negro baiano.
Vivia, apesar das agruras da vida de um negro àquela época, emanando felicidade. E, por isso, tinha a simpatia de todos os meus irmãos de cor, mas também dos senhores brancos, que me pediam, muitas vezes, para assobiar para eles.
Eu tinha um assobio para cada situação.
Uma senhora negra curandeira, que vivia entre nós, sempre me pedia, quando tratava dos negros  que sobreviviam aos maus tratos, que acompanhasse o seu trabalho assobiando. Ela  dizia que meus assobios eram curativos para as feridas de nossos irmãos.
Eu não sabia como, à época, mas, sempre tinha um assobio diferente para cada situação. E, nas ocasiões de tratamentos de saúde ou de feridas dos meus irmãos negros, sentia que a canção fluía do fundo da minha alma.
Aquele senhor faleceu. Sua família me pediu que assobiasse antes do seu corpo ser colocado de volta à terra. E, como um negro obediente, lá estava eu, João Sabiá (assim eu havia sido “rebatizado” pelos meus irmãos de senzala)  assobiando na despedida daquele homem cruel, responsável pelo fim da vida de tantos irmãos meus.
Os anos se passaram, continuei trabalhando no arado, preparando a terra para o plantio e assobiando.
Negro naquela época não tinha idade. Via o tempo passar pelas mãos enrugadas, pelo corpo e pelos cabelos embranquecidos. Porém, quando eu achava ter mais ou menos uns 60 anos, se deu o episódio final daquela etapa da minha jornada.
Havia algum tempo eu havia parado de assobiar, pois, me encontrava triste com tantas mortes seguidas de tantos irmãos negros.
E, quando fui chamado pelo senhor (filho do antigo senhor), não respondi ao seu questionamento,sobre o porquê de eu ter parado de assobiar.
Ele insistiu. Apenas abaixei a cabeça e chorei.
Ele voltou a perguntar. Então, com lágrimas nos olhos, olhei para ele e falei:
- Por que o meu coração se calou diante da sua crueldade de homem branco. Eu posso ter a pele preta, mas sou homem e tenho honra, e juro ao senhor aqui na sua frente, que nunca mais assobiarei.
Ele mandou que seus jagunços me tirassem dali.
Naquele mesmo dia, encontrava-me no pau de sebo, sendo chibateado pelo meu senhor.
Ele gritava para eu assobiar, mas, negro só fazia chorar e gemer.
Senti, aos poucos, meu espírito desvencilhando-se suavemente daquele, que foi meu último corpo carnal.
Ainda pude ver aquele homem infeliz chibateando meu corpo e gritando, pensando que ainda me encontrava vivo.
Eu, um negro já velho, naquele momento pude sentir, pela primeira vez, o doce sabor da liberdade.
E ali, olhando aquela cena triste, assobiei o canto da alforria.
Tive muitas andanças pelo astral. Fui preparado e hoje sou um trabalhador da Umbanda: o Preto Velho João Sabiá.
Poucos me conhecem. Mas, estou em quase todos os terreiros, animando os corações de médiuns e assistentes com minhas canções assobiadas.
Quando você médium, trabalhar na cura ou na mironga, assobiando, ou você, adepto desta linda religião, ver um médium trabalhar assobiando, saiba, de algum modo, João Sabiá está ali.
Trago este relato para me apresentar e para mostrar que há um mistério por trás das canções assobiadas, que são terapêuticas, que curam e que renovam sua alma.
Conquistei minha liberdade assobiando. E aconselho que você, filho de fé, faça o mesmo.
Que a paz de Deus esteja em seu coração!
 
Mensagem Enviada pelo Preto Velho João Sabiá
Escrita por André Cozta
 
 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Onde Eu Vejo Deus- Por André Cozta



Tenho percebido nas minhas andanças algumas peculiaridades, curiosidades até, que anoto para refletir posteriormente e procurar entender a relação destas coisas com o que venho estudando dentro da Teologia de Umbanda Sagrada e da Magia Divina.
A forma como muitos enxergam Deus, nosso Pai e Criador, ainda é confusa.
E olha que falo de pessoas que estudam a espiritualidade, trabalham nas mais variadas vertentes espiritualistas.  Algumas até estudam a Magia Divina e/ou Umbanda Sagrada, praticando-as também.
Ainda assim, noto que o “grande favor” concedido a nós pela cultura cristã em colocar Deus atrás das paredes dos seus templos, afastando-O dos seus seguidores, está enraizado no íntimo de alguns irmãos e irmãs.
Digo isso, por que, desde a minha infância, me incomodava ver nos templos de orientação cristã aquilo que eu denominava em minha mente “esconderijo divino”.
Porque tinha a sensação nítida de que era isso que os sacerdotes faziam: "tiravam" Deus do íntimo das pessoas, fazendo com que O buscassem fora, criando dependência... e aí, já sabemos como funciona todo o processo, não é mesmo?
Outro dia, zapeando o controle remoto, passeando pelos canais da televisão, vi um pastor evangélico estrangeiro, pregando para seus fieis aqui no Brasil, ao lado de outro pastor que fazia a tradução simultânea.
E até gostei da sinceridade dele, pois, foi claro e disse em bom inglês (simultaneamente traduzido para o português), algo mais ou menos assim: “Há muitos por aí pregando que Deus está dentro de nós. Mas ele não está! Está fora e é a nossa salvação.” Ao fundo, havia uma imagem de Jesus Cristo.
Ficou bem claro que a intenção daquele sacerdote era  fazer com que os seus fieis buscassem na sua igreja, na sua pregação, Deus.
Sabe o que mais gosto na minha religião, a Umbanda? O que citei num texto escrito por mim no mês passado: ela não cobra, está baseada no amor. Se você adentrar em um templo umbandista, beneficiar-se, der as costas e nunca mais voltar, com certeza, aquele sacerdote ou médium que serviu de ponte para que acessasse o lado Divino da Criação, sorrirá satisfeito sempre que  lembrar de você. 
Mas, voltando ao que move este texto, tenho observado com muita atenção e curiosidade as várias definições de Deus.
E se tenho feito isto com relação aos irmãos que seguem outras doutrinas religiosas, tenho feito também com alguns que seguem a mesma que sigo e tantos outros que, se não são umbandistas, são espiritualizados, espiritualistas, e até trabalham espiritualmente, na prática da caridade e do esclarecimento acerca do que é Divino.
Deus está em tudo e em todos!
Creio que isto seja ponto comum para quem a este texto chegou.
Se Ele está em tudo e em todos, está dentro de mim, de você, leitor(a), mas também na água, no cristal, no mineral, no vegetal, no ar, no fogo e na terra.
O fato de Ele estar em mim, em você e em todos estes elementos, não quer dizer que neles (os elementos) ou em nós (eu e você), haja um homem com barba branca longa ou qualquer outra imagem humanizada que possa ser construída por nossas criativas mentes.
Nós temos dificuldades em compreender, muitas vezes, a Criação Divina, por conta de não conseguirmos visualizar Vida além do ser humano.
Chegamos até, ao ponto, em alguns casos, de acreditarmos piamente que tudo o que há à nossa volta,  foi colocado por Deus para nos servir.
Então, nossa lógica “escravagista” nos faz pensar que tudo podemos. Sentimo-nos deuses e deusas, destruímos a Criação, acabamos com a Natureza e nos parece estar tudo certo.
Eu penso que, somente quando o ser humano conseguir, de fato, ver Deus dentro de si e também na Natureza, aí então, recuará, retornará e recomeçará a sua caminhada.
Quando conseguirmos visualizar e compreender que Deus é, acima de tudo, Consciência, que não precisa de formas (até porque é o Criador de todas as formas), que Ele está em tudo e que “fora” D’Ele não há nada,, conseguiremos visualizá-Lo sem “fantasias”, ou seja, em tudo e em todos.
A vela que você acende religiosa ou magísticamente não é uma "representação" de Deus. como ouvi dizer outro dia. Se assim fosse, estaríamos vivendo num teatro, onde, você representa que invoca Deus e tudo o que acontece está fora do que é real. Há naquela chama (assim como em todos os outros elementos), emanação Divina.
E se há emanação Divina, há realidade, nunca representação. Há Vida, há Deus Presente, Onipotente, Oniquerente e Onisciente.
Olhemos para os nossos íntimos, para os nossos irmãos, para a Natureza à nossa volta.
Veja Deus numa árvore, como em qualquer outro vegetal, mas, veja-O também na água, no fogo, no cristal, no mineral, no ar, na terra e também nos seus derivados.
Deus a Tudo move. Onde Ele não está, não há nada, não há Vida.
Reflita, pois, se realmente voltar-se para o seu íntimo, sentirá Vida pulsando, sentirá Deus.